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100 Sobral da Adiça
SOBRAL

> 24 Setembro 2005
Sobral da Adiça

Ciência Viva no Verão I

Gargalão / Serra da Preguiça

16 h

A tarde ia a meio quando alguns participantes, pequenos e graúdos, de Sobral, Moura e também de Lisboa, se juntaram nas nascentes do Gargalão para ouvir falar o Alain do funcionamento do aquífero Moura-Ficalho. Um quilómetro mais à frente e chegávamos à mina de Vila Ruiva. Trata-se de uma mina a céu aberto, onde já ninguém trabalha há muito tempo, e que tem tantos buracos e rochas de feitios esquisitos que mais parece a superfície da lua. Pouco depois, subimos, por entre enormes oliveiras, até ao Algar das Andorinhas. É preciso ter cuidado, porque o algar é um buraco muito fundo que se desenvolve na vertical. Apesar de perigosos, estes buracos são bons para que a água da chuva encha os aquíferos. Os aquíferos são uma espécie de rios subterrâneos que circulam dentro dos pequenos espaços das rochas. É graças aos lençóis de água subterrâneos que temos água no Gargalão. Mas os algares também podem trazer problemas para os aquíferos se arrastarem substâncias perigosas como são os pesticidas usados na agricultura ou as bactérias de um qualquer animal em decomposição. Imaginem os reflexos disto tudo na qualidade da água que nós bebemos quando abrimos a torneira lá em casa. Depois deste aviso, o Alain passou o testemunho ao Hugo. Se o Alain é especialista em rochas e água, o Hugo é o sabichão dos morcegos. E veio mesmo a calhar tê-lo ali à mão, porque a mina da Preguiça é só um dos abrigos de morcegos cavernícolas mais importantes do nosso país e da Europa. O dia aproximava-se do fim, altura indicada para apreciar a saída dos morcegos do interior da mina. Ficámos todos de nariz empinado à espera do grande momento enquanto ouvíamos o Hugo falar da necessidade de proteger o local, sobretudo por causa das pessoas que entram dentro da mina e que, com essa atitude, importunam esses mamíferos voadores. À medida que o Hugo ia entrando em pormenores sobre a importância dos morcegos mais crescia nos que o ouviam a consciência para a sua protecção. Só para se ter uma ideia, aqui vivem nove espécies de morcegos, das quais três estão em vias de extinção, numa colónia que pode chegar aos 10 mil indivíduos! Podem parecer muitos, mas basta que os insectos de que se alimentam tenham pesticidas para morrerem bastantes. Depois, com o cair da noite e com a utilização de dois detectores de ultra-sons, conseguimos identificar três das espécies presentes na mina: o morcego-de-peluche, o grupo mais abundante, o morcego-rato-grande e o morcego-de-ferradura. Aprendemos que os sons produzidos pelo morcefo-de-peluche fazem lembrar um sinal de sonar, os de morcego-de-rato-grande são parecidos com o som de pipocas a estalar e que os de morcego-de-ferradura-grande, os mais difíceis de ouvir, se assemelham ao flauteio de uma ave. Com todas estas coisas giras, não admira que tivéssemos regressado ao Gargalão já com a noite cerrada.

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